Diary entries forFake Blonde
Fake Blonde
"Eu jurei que você era loura de verdade..." A superficialidade de uma vida regada a nome, uma profissão arruinada, um conceito de mundo que a partir do momento que as normas sociais padrões não te prometem o que é esperado, você vive uma farsa. Em Falsa Loura temos uma espécie de complemento ou antítese (oi Cris) de Garotas do ABC. Se em um temos as operárias de fábrica transformadas em uma força unida que mesmo individualmente, elas atuam de forma que afeta as demais. Em Falsa Loura o foco da fábrica é substituído pelo foco sobre a imagem de uma pessoa. Silmara é uma jovem que cuida do pai que tem uma síndrome do Pânico por um passado criminoso, proposital ou não, e têm distância do filho que é LGBT e da esposa lhe restando apenas a filha. Vivendo uma jornada dupla, sendo uma jovem branca que mantém um cabelo louro pra se manter na estética do padrão social aceitável e ainda sim ela quebra o estereótipo sendo uma pessoa que fala palavrão, confronta homens e não abaixa a cabeça, existe uma fala criminosa aqui e alí o que só fortalece esse discurso de padrão. A fala "se pra branco já é difícil, imagina pra você..." quando falam de faculdade, diz mais sobre a imagem que temos de um Brasil embranquecido do que o indivíduo sozinho. Existe um Q de não conformismo da protagonista que procura se afastar da norma que ela mesma criou ou altera isso para que fique igual a ela, a personagem Briducha é o maior exemplo disso. Uma pessoa de interior simples é o projeto de mudança pessoal dela, a Cinderela dela e quando ela sofre algo, com algo que Silmara já sabia que poderia acontecer, isso afeta ela de uma forma que não é nem 10% do que sua colega passou, uma criação dela, a imagem dela, uma farsa como ela falhou e se machucou. A câmera de Reichenbach não tem medo de captar o belo e o feio aos olhos da personagem. A sexualidade da mesma é algo que também percorre toda a narrativa, ela fala de sexo, ela faz sexo e isso não é um tabu. Inclusive é assunto nos almoços com as colegas de trabalho e os momentos mais lúdicos, como um sonho erótico, ele é erótico pela circunstância e não pelo ato. Existe beleza na forma como uma serenata num cenário artificial e é motivo de excitação. A conclusão dele é o ato final da farsa, ao perceber que todos notam sua raiz e seus cabelos "falsos" seu mundo cai. Ela volta pra fábrica, ela teve um momento com seus dois ídolos e até mesmo algo que ela sonhava... Mas no fim ela reparou que a diferença de um para o outro, era só o estético, pois no fim ela foi usada e viveu uma falsa realidade tão intensa, quanto o louro dos seus cabelos.
Fake Blonde
A relação de trabalho da classe média, a estética falsa de um ideal humano, o cabelo artificialmente louro, o liquor de menta que brilha néon de tão irreal que ele parece, o galã pop que é um homem hétero básico com dinheiro, mas igualmente bobo e o galã "culto" que tem fetiche nas relações de trabalho da base e explora de forma mais disfarçada tudo o que Silmara é. Uma garota do Job, mas uma trabalhadora de uma fábrica, uma filha leal ao pai e que tem simpatia e carinho por uma caipira. Carlão fez um filme sobre a face do Brasil, em alguns pontos bonito, em alguns pontos sensíveis, em alguns pontos sinceros, mas todos igualmente falsos. A cinderela brasileira não tem um príncipe encantado que resolve sua vida, ela volta pra fábrica e para sua realidade suburbana. Realmente ninguém entendeu Reichenbach tanto quanto Marcelo Caetano. Obra Prima!!!