Diary
April 2026

The Drama
Sobrou espaço para dobrar a aposta na acidez dessa paranóia pré-casamento que se acumula até não ter mais por onde escoar. Borgli, pelo menos, preserva até onde pode uma comédia do absurdo que se dá pela arbitrariedade das imagens que se interpelam, seja pela montagem grosseira em suas transições e no firmamento de uma temporalidade excêntrica ou pelos seus closes-ups e zooms que invadem sem cerimônia a intimidade, as interações e reações mais discretas daquele frágil casal em surto por uma probabilidade. Zendaya permanece força da natureza e tão gravitacional que tudo circunda ela, literal (no enredo) e formalmente; já Pattinson se entrega no que diz respeito a fisicalidade que confere a esse personagem desconfortável no próprio corpo e a Alana Haim sabe fazer um olhar de desdém como poucas na geração dela. Acabar evocando Antes da Meia-Noite - a performance enquanto concretização de um recomeço - é de uma sensibilidade genuinamente comovente. Deliciosa tragédia anunciada.

Thir13en Ghosts
Exercício de gênero satisfatório em como reduz sua mitologia central e dramaturgia a um fio condutor bastante objetivo. Se acaba sacrificando o drama - o núcleo familiar é consideravelmente inexpressivo - , por outro lado, enriquece o playground alucinado e desavergonhado em assumir seus arquétipos e caricaturas. Dos fantasmas surgindo em fades e imagens entrecortadas até os travellings e panorâmicas pelos corredores da casa, existe uma imaginação muito liberta de pensar as texturas e possibilidades desse cenário.
March 2026

GRIN - Rural Indigenous Guard
O passado ainda é. O passado insiste em ser. Cantamos e o que é nosso não é esquecido. se a história é negligenciada ou esquecida, ela deixa de existir. um filme sobre aqueles que ficaram para preservar a memória.

One Battle After Another
1. Tiremos isso do caminho: é uma produção dolorosamente apolítica. Será que estamos tão carentes de filmes bem posicionados pra se encantar por um longa que tem como lição final um "esqueçam essa loucura anti-sistema/revolucionária e simplesmente vivam suas vidas, amem suas famílias, seus filhos e tudo vai ficar bem"? Tudo que envolve a personagem da Teyanna Taylor é, talvez, uma das abordagens mais incompetentes que vi nos últimos anos. Só faltou o Paul Thomas Anderson filmar ela sendo apedrejada por não conseguir ser uma mãe e abandonar a causa; inclusive, é curioso a determinação do PTA em se colocar averso a discursos políticos... mas na hora de pesar a mão no registro, a balança sempre pende pros revolucionários - e como se não fosse o suficiente, tudo em torno do militar interpretado pelo Sean Penn nesse filme evoca mais o texto do Rivette que O Menino do Pijama Listrado inteiro. 2. Ele encontra seus bons momentos quando foca na presença magnética do Benicio Del Toro ou até mesmo na perseguição final - o jogo de antecipação na montagem envolvendo os olhares no retrovisor e a estrada são bem atmosféricos - , mas não deixa de ser um retrocesso em comparativo com Licorice Pizza, justamente enquanto recusa ao divertimento em detrimento dessa hiper-sofisticação cheia de floreios técnicos e frames lapidados. O interesse, novamente, é sempre no mais belo registro e menos no impacto que ele ocasiona. E quando o PTA percebe isso, já estamos em 2h e 20 de duração. Processo total de "Nolanificação" do cinema, cada vez mais asséptico em prol do embelezamento estilístico que morre em si. Uma estrela pelos motivos já citados, pelo Leonardo DiCaprio atrapalhado e pela sinergia da performance silenciosa da Chase Infiniti.

Marty Supreme
A cena-síntese de Marty Supreme é aquela em que o protagonista apanha com uma raquete de tênis de modo humilhante para participar do evento no Japão. Naquele momento, o véu parcialmente se rasga: nem toda lábia do mundo é capaz de conquistar uma farsa tal qual o sonho americano. Uma pena que a resolução final contradiga isso em algum nível. No mais, o meio do filme é riquíssimo em correria, algo que é a especialidade da casa no cinema do Josh Safdie. Tem um Abel Ferrara mafioso buscando seu cachorro perdido e o Tyler, The Creator esbanjando carisma. Chalamet é talentosíssimo em fazer a si mesmo, ainda mais dissimulado e ambicioso que o habitual em seus papéis de canalha medíocre. Filme de uma velocidade compulsiva, de uma textura suja muito particular e afundado em penumbras, aplicando sua câmera fora de eixo, closes médios e extremos para desestabilizar nosso compasso dramático da cena - um pouco mais límpido que seus longas anteriores, mas ainda muito cativante.

Sentimental Value
entre cenários e rostos (https://open.substack.com/pub/joomarco2003/p/entre-cenarios-e-rostos?r=1up5em&utm_campaign=post&utm_medium=web) a casa: esse espaço que encapsula memórias e dores, sentimentos de ternura e amargura quase equivalentes em seu impacto nas memórias de Nora, Agnes e Gustav; duas gerações atormentadas pelo espectro do trauma irresoluto que vagueia pelos cômodos daquele labirinto cênico de melancolia; a câmera se orienta em um nível fantasmagórico mesmo, observando a ação de cômodos distintos, atrás de batentes de portas ou se aproximando de modo indiscreto dos personagens numa cumplicidade dramática muito bem construída. o close up: basicamente, são nessas aproximações, nesse pacto consolidado entre o dispositivo e os atores que nascem as minúcias - os olhares viscerais e franzir de testa da Inga Ibsdotter Lilleeas são muito arrebatadores para simplesmente passar batido - e complexidades do relacionamento tardio entre pais e filhas. existe muito ressentimento mal resolvido nos olhares da Reinsve e Skarsgard, mas muita ternura. isso se segue até o instante final onde a última troca entre os dois reverbera sutilmente a reconciliação. já não existe mais dor.

Hamnet
Se beneficia na medida em que rejeita consideravelmente o naturalismo excessivo, a hiper-sofisticação de suas imagens e a dimensão mística com a natureza ao redor dos personagens tão custosas a cineasta (seus planos gerais e travellings acabam ressoando um tom contemplativo muito deslocado, vale destacar). A medida que Zhao abarca a teatralidade melodramática do drama, as coisas vão se enriquecendo - e alguns dos seus planos estáticos servem bem a uma lógica teatral da cena. Mas ainda falta uma catarse que, de certo modo, a cineasta parece temer expurgar em defintivo. O mais próximo são os closes em Mescal e Buckley no clímax, mas é pouco para recompensar o quão mecânico e abrupto (quanta elipse!) o resultado final acaba sendo. No mais, tem algo em torno de como a Zhao filma mãos que possui um peso dramático muito atordoante - o primeiro encontro de Agnes e Shakespeare, o aperto das chaves, o toque das mãos entre mãe e filho... É algo digno de se observar.
February 2026

Manufractur

Outer Space
FIM DO MILÊNIO

Return to Silent Hill
Gans sofre justamente naquilo que dá tração a sua narrativa: o conflito dramático. A impressão é que tudo se resolve convenientemente nas interferências dos flashbacks, resultando em um dilema que mais soa apressado do que lapidado; isso afeta muito a dissolução mais idílica e otimista, quase beirando ao farsesco - e algo me leva a crer que existe um "final alternativo" mais cru e desolador que, certamente, pode surgir como bônus em uma versão estendida futura. Uma vez superado essa fragilidade da dramaturgia apressada, o diretor se diverte sem qualquer escrúpulo no exercício de gênero. Muito divertido ver uma adaptação de videogame com tamanho fascínio pela plasticidade de suas texturas; Silent Hill é um cenário maleável que opera em estágios, sempre apresentando seus perigos com muita frontalidade - seus ângulos grosseiros e seus closes desnorteantes dão conta de nos afundar no delírio imagético - e fluidez. A câmera está sempre se recondicionando ao clima da narrativa e a lógica dos espaços, com um dinamismo em percorrer as ambientações que dá gosto (e as vezes, explicitando a natureza do material com planos gerais e subjetivas que simulam perspectivas de terceira e primeira pessoa, respectivamente).
January 2026

In the Lost Lands
Evidente o desinteresse de Anderson nas intrigas políticas que, certamente, povoam o material-fonte do George R.R. Martin, pois nem existe algum esmero de tornar a disputa por poder ou o regime ditatorial religioso de seu mundo pós-apocalíptico minimamente instigante. É na dinâmica Bautista-Jovovich, essas duas almas desoladas em meio as ruínas de um universo destruído e solitário, que o cineasta encontra a tração para exercer suas mecânicas sempre revigorantes; da plasticidade desinibida da ação, a delimitação obsessiva pela espacialidade das locações e o trabalho preciso de iluminação bem como os closes extremos e planos gerais, a iconografia de In the Lost Lands é vistosa enquanto se revela desesperançosa nessa fusão de fantasia distópica com western irregular, mas consideravelmente atrativa. O mais fraco do PWSA ainda é um milagre em meio aos blockbusters da Hollywood atual.

Study in Color and Black and White

From: First Hymn to the Night – Novalis
Amo que alguns curtas do Brakhage só te arrastam para dentro de um pandemônio de formas, cores e movimento. É quase um transe mesmo.

Flo Rounds a Corner
A destruição do registro e a evidência do dispositivo cinematográfico, onde a interrupção do movimento e as sobreposições da montagem conferem vertigem aos cenários enquanto estabelece um espaço de temporalidade particular. E tudo isso em um ordinário recorte de alguns segundos em uma filmagem.

Wake Up Dead Man: A Knives Out Mystery
Deus é narrativa, tal qual os demais símbolos católicos que permeiam Wake Up, Dead Man - a miniatura de Jesus no globo de neve em um momento chave reafirma bem isso. E como toda narrativa, ela pode ser retorcida pelas mãos de quem a domina - a moça desumanizada pela misoginia de uma farsa proclamada continua sendo o exemplo mais enfático dessa mentira. Até que ponto queremos acreditar nela? E o que acreditar representa, na arte e na vida como um todo? Que a última frase do personagem do Jeffrey Wright seja o temor acerca de uma geração povoada por conspiracionistas é apenas uma forma de explicitar o que Johnson faz por onde mostrar. Narrativa é como escolhemos contar o que contamos e, por conta disso, a última vez que vemos o rosto da dita moça humilhada, em expressão de angústia e complacência, é suficientemente voraz para destruir a mais bem encenada das narrativas. As duas cenas que melhor representam o filme: quando Jud disserta sobre a força das narrativas e, discretamente, a luz de fundo no vitral atrás dele aumenta e, minutos antes, quando clama por ajuda divina e Blanc adentra em desfoque no fundo da composição. O milagre é o cinema. (A alfinetada na fanbase de Star Wars foi a cereja do bolo)

The Lost Chapter: Yuki's Revenge
Bingo da imaturidade: Quentin Tarantino fazendo um curta para Fortnite. Tão genérico e mercadológico que nem tem nada minimamente instigante para se apegar.

Tarantino's Mind
Até esboça algo curioso no início quando ameaça abordar um pouco sobre a ordinariedade das conversas de bar, mas logo joga tudo fora e aposta nessa decupagem de comercial de empresa telefônica que perde a oportunidade de rir de si próprio. Ainda não sei se ri pelo ridículo ou por alguma consciência de como operar com ele. Pelo sim ou não, ainda é muito precário e óbvio; antes fosse um vídeo-teoria do YouTube - e arrisco a dizer que tem alguns mais expressivos que esse aqui. Ao menos, é fidedigno em uma coisa: cinéfilo é tão arrombado que está sempre fadado a ignorar Jackie Brown quando fala de Tarantino.

The Phoenician Scheme
"Isso é uma encenação?" é o questionamento feito duas vezes pela freira de Mia Threapleton em O Esquema Fenício ao tutor de Michael Cera, mas poderia perfeitamente ser uma observação sobre a própria natureza dos últimos trabalhos de Wes Anderson (The French Dispatch, Asteroid City e Henry Sugar), cada vez mais instigado pelo interesse de evidenciar (e extrapolar) o seu método. Aqui, portanto, suas ambições autoconscientes da própria codificação permanecem intactas, sobretudo no manuseio das extremações de escala - não me recordo de tantos close-ups e planos gerais extremos em espaços internos em outros trabalhos dele - e nos seus já habituais traços, desde a rigidez das composições até a confecção obsessiva da mise-en-scène. Parafraseando o Pedro Lovallo, o(s) primeiro(s) passo(s) em rumo a destruição da casa de bonecas.
December 2025

All My Life
O travelling vai suavemente passando e capturando esse cercado extenso, engolido por algumas plantas e com pedaços de madeira quebrados, ausentes; quando tudo parece corriqueiro e até melancólico em certo nível, vemos flores que dividem essas ausências e a mediocridade da repetição com algo tão extraordinário vindo de algo tão singelo. Ao final, o dispositivo sobre, se eleva, atinge aos céus. Ascende. All My Life. Os últimos dois anos, de certo modo, foram pequenos processos de restauração. A arte estava ali, mas o cinema parecia se distanciar. Quanto mais teimava e insistia de mantê-lo por perto, mais percalços e buracos surgiam no caminho. Essas lacunas eram compensadas por numerosas felicidades, momentos compartilhados de amor, de compreensão e incentivo. Lá e cá, bravada que minha paixão nunca se apagou. Agora eu sei que ela permanece acesa. Em meio a desafetos, tropeços e empecilhos, ela sobreviveu. A brasa flamejou novamente e agora, de algum modo, sinto que voltei ao ponto que estacionei para continuar e (re)começar. O filme do Baillie é sobre vida e eu sinto que essas imagens ressoam na minha. Que 2026 possa ser mais generoso com a única parte de mim que estava em falta: minha paixão por aquilo que faço a 10 anos - e, agora sim, uma década de trajetória. Se cuidem e amem muito. Feliz 2026 à todos!

Avatar: Fire and Ash
A cada novo capítulo da franquia Avatar, a epopeia de James Cameron mais parece dialogar com as inquietações de uma indústria em tempos de crise. Em um momento delicado no cinema Hollywoodiano, em que a busca por novos padrões mercadológicos é cada vez mais desenfreada, o cineasta opera no maquinário dos grandes estúdios um encontro precioso entre estruturas clássicas de premissa e linguagem - seus close-ups médios, bem como os mais fechados, conferem uma cumplicidade imagética à sua dramaturgia; é uma proximidade que reafirma a sensibilidade das personagens -, mas sempre guiadas pela potência dos mecanismos contemporâneos ao seu dispor. Novamente, Pandora resplandece em seus detalhes minuciosos (as texturas dos biomas, das espécies) até os mais alarmantes, reforçadas pelas composições aéreas em plano geral que, mesmo na urgência de núcleos desta terceira parte, ainda encontra pausas para contemplar a magnificência de seu universo. Mas permitir-se encantar por Pandora é, acima de tudo, um salto de fé particular de cada espectador. Talvez por isso, é curioso que o clímax momentâneo da jornada de Neytiri e Sully culmine na busca pela restauração da crença como única forma possível de continuar. Tanto o casal de protagonistas (ambos condicionados pela dor da perda) quanto a sua antagonista, Varang, cujo povo encontrou força no abandono de sua deusa, são reflexos desse conflito espiritual no qual as maiores quedas dramáticas representam a morte do acreditar nas personagens (o quase-sacrifício de Spider, com direito a espelhamentos de Abraão e Isaque). Porque o ato de crer aqui, ao contrário do que se apresenta, diz menos sobre a religiosidade em si. Crer em “Fogo e Cinzas” é, no fim, um apontamento metalinguístico para nós, os espectadores do filme. Se permitir acreditar no mais absurdo dos cenários ou corroborar a mais imaginativa das fantasias, feitas com os aparatos mais evidentemente artificiais e que corroboram os investimentos de milhões para aprimorar as tecnologias presentes em cada imagem é, sem dúvidas, uma disponibilidade da crença que só o cinema pode nos conceder. Entramos em sessões lotadas para compartilharmos momentos de intimidade e catarses emocionais com personagens em tela que, menos de duas horas atrás, sequer sabíamos o nome e que só existem nesse cenário místico capaz de conceder face às nossas ficções. Quando Kiri convoca as criaturas de Pandora ou quando as baleias revidam seus exploradores - momentos em que o humanismo de Cameron se revela em sua forma mais recompensadora - , nossa sensibilidade é aflorada não pela veracidade do que está em cena, mas pela capacidade que exercemos de acreditar que, naquele instante, tudo é possível. Essa é a magia que configura a saga “Avatar”, tal qual esse novo longa, como uma anomalia na Hollywood da atualidade.